7 de agosto de 2006

Palavras de Absinto (Intimidade)


Descrição da imagem: orquídea em cor vermelho bem intenso, em tom que lembra o vinho.



Palavras de Absinto
(Intimidade)


Ele me viu nua, já no primeiro dia.
Pois de que outra forma teria visto minha alma?
E eu sei que viu!
Eu, que a vida toda tantos cuidados tomei
para mostrar minha essência


apenas ao que me inspirasse confiança,
agora, me via nua, diante daquele estranho,
que só não me fitava os olhos,
mas por todo meu corpo e pela minh’alma corria os seus.

E Ele não se contentava em apenas me olhar.
Queria mais!
Imaginem: queria fazer minha leitura!
Ah, não, isso não!
Isso eu não permitiria!
E até que sou tolerante.
Mas, nesse caso, quanta ousadia!

Mulher braba, que sempre fui,
Esperneei, ameacei, roguei pragas,
Sem medo que, atiçando sua ira,


ali minha existência chegasse ao fim
– mas era mal menor que a exposição,
que naquele momento eu sofria.



E maldisse seu sangue,
em todas as gerações que lhe seguissem,
Se chegasse mais perto de mim.

Gritar, não! Isso eu não fiz!
Ele não podia conhecer mais um pedaço de mim,


tão bem guardado,
sem que me trouxesse ainda mais encantos.

Não gritei, e nem recitei poemas.
Aquilo tudo era intimidade demais para eu suportar
sem medos e sem acanhamentos.

Exausta com toda aquela situação, proferi em desespero:
“Afaste-se de minha alma!”
Foi somente essa a fala que conseguiu me arrancar,
em todos os momentos que (sobre)vivemos juntos.

Mas Ele não foi embora.
Alheio a minha ordem,


continuou a passear pelo meu corpo,
pelos meus pensamentos, pelas minhas pernas,
pelas minhas marcas, pelas minhas dores e delícias...

Finalmente Ele pareceu cansar.
Mas foi aí que me olhou nos olhos, espelhos do que sou.
E sorriu...
Pelo semblante, estava maravilhado...

Por um segundo, apenas, piscou os seus,
e saímos do transe, desconectamos.
Foi aí que me perdeu de vista.
Houve tempo suficiente para que eu pudesse fugir.

Pronto, era dona de mim de novo.
Inteira, audaz, indomada, corajosa, assustadora...

A partir daquele momento,
Ele passou a carregar um certo semblante...
Um semblante de gozo,
que eu só tinha visto antes
na face daqueles que pintam, escrevem,
dançam, tocam e assim seguem a celebrar a vida.

E sem que fizesse sentido algum,
assim, sem violências, sem toques,
sem palavras venenosas


sem nada que servisse para justificar a atitude,
Cobriu-se com seus cílios e se foi...
E nunca mais abriu os olhos para mim.

Pergunto-me, ainda hoje, o que somente ele viu,
que eu ainda não conheço.
O que de belo habita em mim,
que eu nem mesma sei, e nem tiro proveito.
E também o que machuca, e arranha, e fere, e mata.
Só sei que com sua ida,
algo se desencantou nos meus dias...

Desde então, nunca mais fiquei nua
para quem quer que fosse.
Sei como acontece, e aprendi a evitar.
Assim, passei a ser inteira e unicamente
desse estranho invasor de minh’alma.

Têm dias em que sinto um lamento, um peso...
uma quase saudade
Daquele estranho homem que me tirou a roupa,
visitou minha alma,
Conheceu-me inteira e se foi sem palavras...

2 Comentários:

Fábio Sirino disse...

Tenho agora a responsabilidade de romper o hímen deste blog.
Na poesia desta linda, doce e cruel mulher, que por anos andou adormecida, reside a força perdida dos encantos místicos das amazonas, talvez traga a nos homens a paixão dos sonhos e os encantos dos livros, ou seja, fruto da mais simples técnica da sedução, a naturalidade. Deixe que a poesia surja livre e viva, sem pudor ou medos de escrever, seja uma estrela, seja você...

Estrela disse...

Obrigada pelas doces palavras e pelo voto de confiança, de que posso adentrar nesse universo de sonhos, folhas, tintas, lápis e papéis, onde sempre tivesses morada por vocação e por missão.
Beijo no coração.

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