30 de agosto de 2006

A dança desencontrada do amor



Descrição da imagem: por entre os galhos verdes da planta, vê-se o céu azul ao fundo. 
Em primeiro plano, flores brancas de pétalas brancas e grandes. O centro das flores é amarelo.


A dança desencontrada do amor

 
Pelo deslumbramento que experimentara, resolveu: queria a presença dela para sempre em sua vida.

E sem a menor cerimônia e nem meias palavras disparou uma adorável metralhadora de promessas amorosas.

Simpatia, flores do campo, ligações na madrugada, olhares de cumplicidade, sorrisos encantadores, beijos ardentes, rosas vermelhas, presentes, compreensão, luz da lua, promessa de casamento, anel de brilhante, proteção, ombro amigo, segurança, aliança, mais rosas vermelhas, desculpas, chegar cedo em casa, largar os vícios, empenho na profissão, jantares, músicas, lágrimas e mãos dadas no último capítulo da novela, não ter medo de TPM, ajudar com os filhos, mais e mais rosas vermelhas, sedução, confiança, gozo, a simbologia de uma canção, na saúde, na doença, na tristeza, na alegria, por todos os dias do resto de suas vidas... e sempre muitas rosas vermelhas.

Ela ouviu tudo em silêncio e olhou bem em seus olhos. Riu seco, com uma dose de ironia e até com uma certa agressividade.


“Só podia ser uma brincadeira!”

“Um truculento absurdo!”

Deu-lhe as costas e saiu resmungando para si mesma, sem dizer “sim”, nem "não”.

Já caminhando, veio em seus pensamentos um misto de espanto e lamento. Trouxe a mão ao rosto, discretamente, como a se proteger do sol, mas o que queria esconder, mesmo, era a feição de dor que sabia estampada.

Seguiu em frente como sempre fez, mas custando a acreditar que naquele minuto encontrara em espírito e carne o que por toda a vida esperara em silêncio, só que muito depois de ter desistido da sagrada busca amorosa.

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