1 de setembro de 2006

Me dá, que a dor é minha!


Descrição da imagem: flor em tons laranja e lilás, com formato que ao longe, 
usando a imaginação, se parece com um pássaro.


Me dá, que a dor é minha!
.

Desde que o conheci,
algo de um tom azul turquesa
adornado com purpurinas
instalara-se em meu coração.

Ele me trazia paz.
Brilhar, portanto,
era uma conseqüência natural.

Mas me assustava perder
o contato com as minhas dores,
algumas tão antigas
quanto minha própria existência.

Eram elas que me mantinham atenta
balizavam meus limites
e me proporcionavam
o desapontamento necessário
para seguir adiante
com a devida sensibilidade e decência.

Por isso, entrava em pânico
cada vez que,
desobediente as minhas vontades,
um sorriso luminoso
se instalava em meu rosto.

As pessoas já percebiam.
E, furtivas, comentavam.

Lutei bastante para me manter infeliz
– única chance de permanecer sã.
Olhava no espelho...
Uma mulher encantadora!
Luminosa, quase uma estrela.
E eu não sabia conviver com ela.
Sem saber como voltar a me reconhecer,
abri feridas já cicatrizadas,
criei outras novas, profundas e sangrentas,
providenciei tristezas,
encomendei decepções
busquei mais vícios,
colecionei contrariedades.

Era pouco,
o meu coração permanecia em festa.

Blasfemei o sol,
agarrei-me ao submundo.


A escuridão e a umidade de furna
por certo trariam de volta a angústia
e o desespero que me eram tão familiares.
e me enfeiavam, mas me deixavam aliviada.

Em minha garganta
Gargalhadas sonoras viviam prestes a escapar.

Passei a ignorar a proteção das calçadas
e a andar em meio fio,
olhando bem nos olhos dos condutores,
desafiadora, provocativa, agressiva,
à espera de uma atitude
que me devolvesse a dor e a sanidade.
Gritos silenciosos pelas esquinas.
Porém, algo ia errado.
Quando me distraía,
um certo balanço no andar
e o cantarolar de uma canção me denunciavam.

Abandonei as noções de respeito,
cuspi em feições amorosas,
gritava impropérios
maldizia benfeitores,
exaltava a fingida ralé
que nos fomenta a miséria.
Trazia a mostra meus aleijões.

Esforço inútil.
Meus olhos continuavam a brilhar,
sinal de esperança na vida e na humanidade.
Sem chances! Tarde demais!
Pela superação da dor
eu acreditava no amor e me sabia feliz.

Derrotada, machucada, mutilada
por iniciativa minha, mesmo,
mas ainda brilhante e azulada
voltei ao espelho.
Me faltavam opções.
Aceitei meus dons,
acolhi meu sorriso
abracei meus encantos,
rasguei meu peito
sem cuidados,
o que impediria mudar de idéia
e segui caminho, ensaiando sorrisos,
e com a estranha luz a mostra.

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