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11 de junho de 2013

Um dia atrás do outro

Descrição da imagem.  Sobre pedras polidas de jardim repousa uma flor rosa claro, de muitas pétalas.

Um dia atrás do outro


Os dias vêm se sucedendo numa cadência
que não me diz respeito.
Os dias nascem e se encerram
com o mesmo colorido,
o mesmo calor ameno
e a mesma penetração de luz.
Nada muda.
A vida parece não caminhar em meu ritmo.
Sim, sei que ela passa.
Sei sim.
Vejo as marcas da vida
na pele de minhas mãos
e ao redor de meus olhos.
Odeio esses sinais do tempo!
Não poderiam ser outras,
em locais menos visíveis,
essas marcas do que vivi?
Não poderia a aridez da idade
se concentrar toda num lugar só
lá na sola de meu pé esquerdo,
como um arremate bem feito,
onde eu só pudesse vê-lo
com muita dificuldade, em contorsão?
Ou por que não no avesso de minha pele,
lá pela nunca, perdido entre os cabelos
em costura de fio invisível?
Construí minha vida, estou certa.
Sou inquieta demais
para ficar na janela escutando música.
Mas nos últimos tempos os acontecimentos

parecem alheios a meu ritmo.
A vida parece ter me esquecido
em algum cantinho sem graça,
em alguma estrada marginal,
e nada me acontece,
que seja digno de registro.
Estou numa espécie de ponto de apoio
onde as pessoas param,
se entregam ao cansaço, se recompõem
tomam fôlego e prosseguem.
Sou a que diz as palavras de perseverança
bravura e intrepidez.
A que dá força para prosseguirem.
Mas quando elas se animam e vão adiante,
permaneço em minha melancolia atonal,
parada, no tal cantinho
aguardando não sei bem o quê,
e vindo não sei de onde.
Sou, mesmo, da equipe de retaguarda.
A que nunca vai cruzar a linha de chegada,
a que nunca vai receber a taça no podium
mas que participou ativamente da campanha,
no suporte, nos preparativos, nas negociações.
Nunca conduzi feitos magistrais,
mas sempre estou por perto

de quem os deu vida.
Uso bem, e em meu favor,

as descobertas alheias,
mas nunca inventei nada
que viesse a me trazer glória ou prestígio,
ou que levasse meu nome
a ser citado em conversas alheias
travadas há quilômetros de distância.
Só uma vantagem:
se de bom não me vieram ocorrências,
ao menos os infortúnios passaram longe.
Os que amo, não morreram ainda,
Os que convivo, não se machucaram
E nem machucaram ninguém.
A vida segue sua cadência,
num som grave, de batida oca, faceiro,
mas em tom de acompanhamento.
Batuque que sozinha não forma melodia.
Dilema: não sei se espero a vida concluir
esse seu ciclo enfadonho, em marcação amena,
ou se acelero os ritmos de meu coração
e me atiro desvairada

numa rota que não é minha
só para sentir o gosto apimentado

da aventura alheia.
Sinto que esses dias não me pertencem.

3 de junho de 2010

Jurandir Bozo - o Encantador de Serpentes

Me apaixonei por este moço desde a primeira vez que o vi.

Hoje ele faz parte de minha existência. E sua música e poesia me acompanham os dias. Os tristes, e os alegres.

Divulgar os segredos que lhe correm pelas veias é sempre uma honra, e até uma missão, em nome da cultura alagoana.

Convido a todos a visitarem o meu maravilhoso Jurandir Bozo, cujas músicas estão disponíveis no My Space. Para escutá-las, clique aqui. Lá, há também vídeos disponíveis.

"O artista popular Jurandir Bozo surgiu nas paragens do sertão no baixo São Francisco onde banhado pelas águas doces da cidade de Pão de Açúcar se encantou desde menino pela cultura popular, e assim, veio trilhando seu caminho a mais de quinze anos de luta e paixão pela música popular alagoana.

Dirigiu vários espetáculos (O que Vem Depois dos Mestres, Poeira-AL, Quilombagem, O terço segundo Mateus, entre outros) de grande repercussão local, e, um deles, Verdelinho e seus Convidados no teatro Deodoro, acabou firmando uma parceria forte com o saudoso mestre gerando várias apresentações na cidade de Maceió e cominando na produção artística do Cd Unirversando, do mestre Verdelinho.

Jurandir Bozo foi fundador e vocalista da banda Poeira Nordestina, tida como umas das bandas que mais valorizavam a cultura e a música alagoana, influenciando sua geração no sentindo de buscar com pesquisa suas próprias raízes. Em sua trajetória, a proximidade com os ritmos populares vem como característica maior de uma história que a cada dia se consolida com espetáculos que difundem essas manifestações culturais, mas de forma emocionante, divertida e envolvente, levando o nome do seu Estado e de sua cidade por onde quer que vá. - Além de músico, arranjador é produtor cultural, - Dirigiu vários espetáculos de música e teatro. -

Trabalhou como professor em escolas e ongs , levando a seus alunos os saberes das culturas populares enquanto contador de estórias, ator e diretor de teatro de rua. - Poeta, improvisador de emboladas, cantador e percursionista, ator e diretor, o artista mostra a sua versatilidade em diversas áreas da cultura popular e da arte contemporânea".


O ENCANTADOR DE SERPENTES

Estrela (disponível no blog Palavras de Absinto).
Eu já sonhava com a textura do teu toque,
quando o palco ainda era tua morada.
Eu já imaginava o calor de tuas mãos,
desde a primeira vez
em que te vi acariciar a pele das congas,
ordenando tuas vontades em gestos,
e elas, alucinadas, te obedecendo em ritmos.

Eu recriei em ondas cerebrais o teu grito rouco e forte,
quando meus ouvidos só conheciam
as primeiras nuances de tua voz cantarolando em falsete,
dando ritmo as mulheres que te adornavam o solo.

E já sabia que um dia tu descerias do tablado,
e buscar-me-ia com os olhos em meio ao público.
E quando me achasses, sorririas,
e com calma entrarias em minha vida,
como se há muito ela já fosse tua.

De antemão, eu sabia que me olharias nos olhos,
e me afagarias as mãos.
E que me dirias coisas profanas ao ouvido.
Segredos nossos, do que ainda teríamos a sobreviver,
mas que eu já colecionava e, por isso, não me assustavam.

Disso tudo eu sabia,
porque antes do fim do show de tua vida,
antes de desceres do palco
eu já havia pedido licença ao meu sagrado
e tratara de exercer minha arte, o meu ofício,
para restituir-lhe o feitiço em gênero e em número,
mas em grau mais intenso.

Para ter-te meu, como me tinhas,
Tive que te fazer cativo do meu enredo.
Teci-lhe uma longa e emaranhada história,
cheia de nós e pontos reversos,
na qual eu trançara, cuidadosa e antecipadamente,
o roteiro que eu queria que tivesse a nossa sobrevida.

Pedi licença ao teu profano
e estreei no teu palco a minha fábula,
cheia de heróis, príncipes,
capas, espadas e dragões vencidos.
Nela, não haveria piedade para os maus.
Também não haveria donzelas,
até para que não houvesse necessidade de dublês
e com isso inchasse o orçamento
– já que dinheiro é sempre problema nos relacionamentos.

No palco, só eu e você.
E o final era de múltipla escolha,
qualquer deles, venturoso.
É que tínhamos nos pulsos
como garantia de vida, a marca dos afortunados.
O sinal profundo, feito a ferro e fogo
pouco depois do nascimento,
e que nos identificaria quando, enfim, nos defrontássemos.
Por ele, perdíamos o medo,
pois sabíamos que juntos,
separados pela vida ou por outros amores.
Em qualquer dos finais, seríamos “felizes para sempre”.

9 de agosto de 2009

Porque escrevo


Descrição da imagem: a foto é toda em branco e preto, como se de um terreno em erosão, com o solo descamando. No centro da foto, discreto como um camaleão, um olha negro, de cílios longos e com uma lágrima escura escorrendo. Muito bem encaixado com o ambiente, fica meio que como camuflado. 


Porque escrevo


Escrevo pra te ter por perto.
É somente isso.
Por saber que em algum lugar
– não sei ao certo onde, talvez do meio do mar –
buscarás por mim com os olhos de tua alma cega,
todo os dias.
Em tempos modernos, leituras diárias e obrigatórias
são as chamadas do jornal on line, a caixa de mensagens,
o twitter, o site de compras em promoção.
Os meus escritos não se encontram
entre as opções recomendadas pelos especialistas,
para uma boa administração do tempo e da vida.
Estariam na classificação das futilidades.
Mas sei que tens, silencioso e furtivo,
mais um item essencial
em tua rotina diária: o Meu Jardim.
Perde-te nele,
escondendo-se dos especialistas e consultores.
Se eles descobrem que gastas tempo assim, comigo...
Buscas diariamente por mim – eu pressinto.
Interpretas imagens, observa a mudança das cores,
a nitidez das letras, remoendo as palavras
na ânsia de extrair-lhes as informações que precisas
para saber de mim.
Sei que esperas que delas saia algum cheiro ou umidade,
que te façam rememorar as lembranças doces
de nossa sobrevida em comum.
Franzirás a testa, em surpresa,
quando souberes de mim, atualmente.
Perto de ti, jamais teria coragem! Não me permitiria.
Mas assim ... solta... posso tudo!
Não há porque me poupar dos riscos, da adrenalina
e dos efeitos do cio.
Sou só eu. Me jogo.
Percorres o meu jardim todo.
E eu, furtiva, te observando
por trás das gérberas vermelhas
do jardim de delícias
(é que são as minhas preferidas).
Quero correr o olhar sobre ti diversas vezes
De cima a baixo, de cima a baixo,
Com a pressa de quem tem fome
e escorre em gotas densas.
Se me perceberes a presença,
ah, aí me exibirei,
com a pouca roupa que me reste,
em passos de gazela, jogando os cabelos para o lado
simulando displicência
disfarçando a orquestração
de minhas atitudes programadas e sedutoras,
feitas para te causar espamos.
Ah, os odores...
Exaustivos ensaios para o caso de te olhar nos olhos.
Mirar-te-ei fixo - é o combinado.
Mas a ave de rapina que não come há dias
vai me denunciar e te mostrar as marcas,
aquelas dos pulsos, que só você conhece.
As que se escondem
entre as pedras e miçangas que me adornam.
Venho escrevendo para te ter por perto
Uma sherazade dos tempos modernos,
de jeans e lap top na mochila.
É o visual que me cai bem,
(embora a profissão e a idade queiram me impor outro).
Sei do teu encanto pelo que sai dos meus lábios
e das pontas dos meus dedos.
Então, despudorada, me exibo em palavras.
Escrevo para que me sinta latente em tuas veias grossas,
as que alimentam os teus braços
cujo calor e a firmeza me encantam sempre que te vejo.
Palavras saindo em fluxo de violenta pressão,
porque tenho urgência de ti.
Escrevo para que me sinta quente e úmida em tuas mãos
Acostumei assim, a não poder, a todo momento,
te encher dos beijos
e da pressão da minha boca, nos pontos certos.
Acostumei assim,
a te encher de letras e palavras roucas em grafite,
ou de letras de forma pontiaguda no computador,
como flechas.
Há tempos que os meus beijos
são os de batom púrpura em papel de escritório,
marcando o fim do que te escrevo
Nunca chegarão a tuas mãos, como, de fato, seus.
Uso em meu favor o benefício da dúvida:
a publicação.
Em versos, há a desculpa do personagem,
de que se trata de ficção.
E me divirto em saber que isso te atordoa.
Uma mulher má...
Abaixo, sempre assinado
em discreta caneta preta: A Sua.

6 de janeiro de 2008

Sexo sem amor: "Você me entende?"


Descrição da imagem: tapete de folhagem verde de onde brotam florzinhas mescladas em rosa e branco.

Sexo sem amor. “Você me entende?”


Eu faço amor, com a força de quem te ama...
E depois visto minha roupa e sorrio para o mundo,
sem olhar pra trás uma vez sequer.

E sei que isso te nauseia
Afinal, até então,
não conhecias mulher alguma
que se entregasse a gozar e sorrir
e ignorasse o dia seguinte.

Sei que não conhecias mulher
que se despreocupasse com os nomes e os pactos.
Ora, isso era pra ser segredo só dos homens.
Te informo: tenho útero, mas faço parte dessa “irmandade”.

Sinto o preto dos teus olhos
acompanhando meus movimentos todos.

É hora do almoço: devoro-te.

Teus olhos seguem, atentos,
a minha entrega e o meu refazer.
Acompanham-me quando, calmamente,
ponho de volta o meu vestido preto.

Cubro as marcas do que fizemos,
com um preto que nem brilha
e nem brinca com transparências.
Austero.

Refaço-me.
Levo comigo, discretamente,
aqueles cheiros todos
que nas poucas horas
estabelecidas para o repouso de quem trabalha,
nós misturamos em alquimia e a exaustão.
Permanecem só o preto e os odores.

Refaço-me.
Da avassaladora, nada mais existe;
volto à invisibilidade que me cai tão bem.

Há um sinal: um leve decote,
para que teus olhos pretos, cúmplices,
relembrem as fantasia e os segredos de nós,
que guardo displicente e silenciosa.

Sou fantasia.
Entendes?

Em dias de ventania, mostro-me mais.
O vento nordeste adora os meus joelhos.

Os nós dos meus joelhos revelam desejos quentes
E trazem lembranças inconfessáveis,
de almoços memoráveis, celebrações de vida,
encontro entre amigos
dos quais estive inexplicavelmente ausente,
porque te devorava
– uma outra forma de celebrar a vida.

7 de novembro de 2007

A Secreta

A secreta

São assim, mesmo, os meus poemas.
Legítimos exemplos do quase nada.
Legíveis por pouco tempo –
é que os sentimentos coloridos se misturam todos,
formando uma massa ocre da qual
não é possível se extrair mais nada.

É que escrevo em papel úmido,
e com lápis hidrocor.
Por épocas, me consideram escritora.
Dá medo! É maior do que sou.
Me entendo vazando pelos dedos,
em sangue preto de nanquim.

Mas às vezes
a vaidade assume as rédeas de mim
e me ponho a arrotar ares de poetisa.

”Sim, tenho um dom!
Tenho tudo para ser um sucesso literário:
amores mal vividos, dores que não saram
segredos inconfessáveis,
lembranças que doem,
saudades que queimam.”

Não me faltam temas atraentes para a humanidade
– Adoramos as dores alheias.

Angústia, depressão, coração que aperta.
Já pensei em suicídio umas tantas vezes
que há anos perdi a conta.

Tem dias que permaneço em meu quarto.
A noite chega e de lá não saio.
Dias a fio, na solidão que preciso
para perder o medo do próximo passo.

Dias em que só tolero água.
Noites em que me sento ao chão da cozinha
e nela rumino por horas.
Sou de pólos opostos,
como toda mulher que se aceita
regida pela lua.

Silêncio, silêncio...
Depois os gritos afônicos.
Só a feição de dor e a boca seca...
De palavras concretas, nada, nada, nunca!
Palavras só saem de minhas mãos,
pelo sangue-nanquim
que me correm pelas cânulas e tinteiros.

Preciso manter em segredo estas coisas todas.
Se me descobrem entre os sadios,
perigo ser atirada na morada dos loucos.
De lá, não se sai com os sonhos intactos...

Prossigo simulando equilíbrio,
enquanto o meu avesso todo
queima e grita, e arde, e chora e se contorce.

A posição fetal me acalma...

Pego os meus papéis,
como de costume,
umedeço-os com minhas lágrimas
e os personalizo com meus lápis hidrocor.
Cada marca, uma dor.

Rápido! Rápido!
Leia-me enquanto não se embaraçam.
De novo... Mais uma chance se foi...

Estou só...
Estou sempre só...
Até hoje, nunca me chegou alguém
antes da previsível fusão de cores
que me decifrasse em grafite
e me dissesse em preto no branco
as respostas que me habitam.

É preciso me olhar nos olhos,
de fora pra dentro.
Depois, falar-me o que vê.
Têm respostas que o espelho não reflete.
Só outros olhos são capazes de perceber.
Certas nuances furtivas...

Se me olho, capto em distorção,
não me serve.
Preciso do segredo,
o que está dentro
o que me foge, o que me trai.
A outra.

A que sai na noite
e gargalha pelas sombras.
A do mundo, a que não conheço ainda.
A que tem cabelos de fogo
e olhos quentes.

A que sabe quem eu sou
e me reconhece.
A que me esconde as pistas
para se divertir com minha agonia.

A que nego,
mas de fato só em mim habita...

18 de maio de 2007

Ecstase


Descrição da imagem: cachos de flores amarelas pendem de uma árvore que se encontra quase sem folhas. Ao fundo, um céu de um azul cinzento, como em dias de outono.


Ecstase


Sei que ninguém mais te traz
a adrenalina que injeto em tua vida.
E é por isso que permito que te vás,
e te vás, e te vás, como há muito já te disse.
Para longe e para todo o sempre se vá.
Pois tenho em mim que após breve descanso
sempre retornarás.

O mundo não entende a equação de nossos beijos
intervalados, em picos de amenidade e vandalismo.
Um ponto, uma intermitência, e o prosseguimento.
É assim que transcorre nossa vida:
em ciclos de profundo amor,
fechados com isolamento; e silêncio eterno.

Para sempre...
Como se no amor, algo fosse para sempre...

2 de abril de 2007

Da mais profunda pele


Descrição da imagem: flores silvestres, pequeninas, em tom vermelho, amarelo e rosado. Algumas em foco, outras fora dele.  Uma borboleta em tons branco, amarelo e preto repousa sobre uma das flores.


Da mais profunda pele

Sinto-me de dentro para fora.
A permissão primeira,
o comando de invasão de mim
vem de um ponto onde só eu domino.
Lá, onde vivem minhas vontades.

Algum lugar incerto
localizado entre meu peito e o meu útero,
onde sou rainha de mim
e ninguém me dá ordens,
a não ser, o meu outro eu.

Afinal, somos de pólos duplos
nós os seres que teimamos
permanecer pensantes
em pleno século XXI
– que ousadia!

Sinto-te pelos poros,
pois assim permiti.
Não acredito em outra forma
de relacionamento amoroso,
que não a que nos invade
com uma certa violência e desordem

E foi assim, de dentro pra fora,
que preparei sua chegada.
Derrubando guardas, desfazendo medos
festejando silenciosa,
entre sobressaltos e mansidão.
Primeiro a alma, depois o corpo
– essa armadura que passou a solicitar tua presença
em ondas cíclicas de alegria.

Pronto: amo-te!

18 de março de 2007

A dona da história


Descrição da imagem: uma flor branca de grandes pétalas ocupa todo o enquadramento da foto. O seu centro é em rosa forte e com pequenas manchinhas em tom mais escuro e tam´bem em amarelo. O seu formato lembra os pequenos e grandes lábios do sexo das mulheres.

A dona da história
E que se passem os anos
em cansativa lentidão.
E que, eles todos, em somatório,
nos afastem com ares de “nunca mais”.
Nada me verga.

Acredito nos presságios
e no movimento da vida.
Acredito na troca de olhares
e na paz que a ela se segue.
Por trás das várias capas que te guardam,
Simplesmente, acredito.

Em que parte da história? Eu pergunto.
Eu que parte houve a fusão?
Quando, sem perceber, adentrei a porta
– entre as tantas – sendo somente ela
a que me traria até aqui?
Qual caminho segui – sem que soubesse –
e onde lacei teu coração?
E com que força!
Com tranças, tecidas nas noites insones
– incansavelmente –, atei-te a mim,
e te fiz meu, sem que percebesses?

A dona da história.
Dona da minha.
Da tua história.
A dona.
A Madona.

Repousa, guerreiro meu.
Repousa em teus próprios braços
Já que não temos um ao outro
para recompormos as energias
que se fluem com o passar dos dias doridos..
Repousa ao longe, cabisbaixo.
Depois, levanta-te e prossegue.
Prossegue sem medo de perder-se de mim.
Avança, intrépido, em direção oposta – não temas.
Afaste-te de mim, quantas vezes precise
para reafirmar os seus votos pessoais,
ou para o mundo acreditar que venceu a batalha.
Vá, e vá... e vá.... e vá....
Eu, nada temo.
Há muito caminho aconchegada em teu peito.
Nada mais me importa.

1 de fevereiro de 2007

Iesus


Descrição da imagem: sob fundo verde da vegetação, duas flores que mais parecem um feixe de tirinhas rosas e brancas.



Iesus

Venham a mim, palavrinhas!
Venham todas!
Das simples, às rebuscadas,
Das coloquiais, ao erudito.
Mas venham logo.

Preciso descrever este momento.
É necessário que todos saibam.
Careço de alertar o mundo
para o que me acontece,
para que ninguém mais
caia na armadilha
e viva dor de vida, desnecessariamente.

Preciso avisar aos outros viventes:
“Percebe aquele amontoado de folhas?”
“Está vendo a flecha envenenada?”
“Sentiu o cheiro do medo?”
“Corra! Corra o mais rápido que puder!”
“E só pare quando souber as respostas todas”.
Elas virão com a respiração compassada.
As respostas simples, e as técnicas.
As que se respondem com um ‘sim’ ou ‘não’,
e as que requerem equações em lousa.

Então, respeite o tempo!
E não se exponha muito nas noite de lua cheia
enquanto esse sábio guardião
não termia o nosso lapidar.

Por que a lua não cai do céu?
O que é o amor, e para onde ele quer me levar?
Por que o mar é salgado?
O que é o amor, e para onde ele quer me levar?
Quem foi o designer das asas das borboletas?
O que é o amor, e para onde ele quer me levar?

Venham a mim, palavrinhas.
E me permitam descrever com fidelidade
o grito que há anos ensaia rasgar minha garganta
mas pára na última camada de pele
deixando marcas, vergões e hematomas,
sem que vire sonoridade.
Permitam-me descrever a tortura
e a covardia que lhe segue o silêncio.
Permitam-me explicar a dor que lhe acompanha.

Peço consentimento aos mestres
para enfileirar palavras
em uma linha sinuosa e sem fim.
Precisarei de muitas
para explicar o que se passa
e garantir que ninguém desconheça
que a vida lhe crava os dentes afiados
toda vez que se navegue em ziguezague.
“Navegar é preciso” sempre.

Mas que seja com dignidade e elegância,
objetivo e direção.
E uma certa graça
- bálsamo das dores que me acompanham.


24 de janeiro de 2007

Amor e vida

Descrição da imagem: sob fundo pedregoso, duas flores brancas, de centro amarelo, com raios avermelhados.


Amor e vida


Movida pelo coração,
falta-me razão de existir
se me percebo em passos solitários.

Não sei ser “eu”, assim, somente.
Não me foi repassada essa lição
de sobreviver, íntegra, sendo unidade.
Ou cabulei a aula,
seguindo, fugitiva, o meu amor pela vida?
Já faz muito tempo.
Agora não sei mais o porquê
mas me agradam os movimentos duplicados.

Sei, que só sei andar em dueto.
Aos pares reinvento sorrisos,
alimento desejos e
junto as mãos em prece
para os casos de dor profunda
– já que a fé passa a fazer morada em mim.
Simplesmente, confio.

Acredito que o bom mesmo,
se não se pode andar aos pares,
é ao menos ter lembrança
de olhos e de beijos,
de mãos e gemidos cúmplices.

Ainda que em silêncio
Não abro mão desta crença.
Acompanhada, ou em solidão ritmada
escolho seguir impregnada de sentimentos
pois de outra forma, eu não sei para o quê vim.

18 de janeiro de 2007

Seara em ruína

Descrição da imagem: folhagem verde escura de uma mangueira

Seara em ruína

Contigo, foram-se as letras e os papéis.
Foram-se contigo as idéias e as tintas.
Todos eles te seguiram em cegueira,
pois são servos de tua luz.

Agora, o que me sai da boca
é cinzento e sem lume.
O que me escapa aos dedos
é horizontal e circunspecto

Não me acostumei com as perdas.
Não me acomodei a elas,
por isso os pesadelos monocromáticos.

Vez por outra
me pego de caneta em punho
rabiscando inutilmente
as folhas dos cadernos que restaram.
É o desejo que as cores voltem.
Mas não voltam. Nem nos sonhos.

Tantos dias já se passaram
sem um sussurro,
sem um soprar de brisa,
que poucas já são as chances de retomada.

Ao que parece, acabou.
Secaram os sorrisos
Murcharam os desejos
Humilharam-se as flores.

Ao certo, somente as lembranças.
E essas, eu ainda não defini em mim
se são frutos de delírio
ou restos de frustração.

21 de dezembro de 2006

Contraditório

Descrição da imagem: a frente de fundo escuro, composto pela vegetação do local, uma flor branca, em que pistilos amarelados e esverdeados pendem.. Uma das folhas tem tons rosa e alaranjados.


Contraditório


Contraditório, este sistema do tempo.
A gente vai ficando mais velho
e aí vai entendendo
o funcionamento das coisas
e o nosso próprio funcionamento.

E fica mais “ligth”, mais descolado.
Já não “encuca” tanto com bobagens.
Mas, ao mesmo tempo, vai ficando mais seletivo,
mais exigente, menos tolerante.
Estranho conter em um mesmo lugar
dois sentimentos tão antagônicos,
o “exigir” e o “permitir”.
Só mesmo a sabedoria da vida,
para dar resposta
a equação tão delicada de sentimentos.

Que somos nós?
Somos caos em busca de equilíbrio?
Ou equilibrados com surtos violentos?
Cabo de guerra de sentimentos reversos.
Talvez a resposta exata
nos chegue com o fim dos nossos dias.
Uma pena...
Tarde demais vamos constatar
que muita dor poderia ter sido evitada no caminho.

16 de dezembro de 2006

Coleção


Descrição da imagem: várias margarinas repousa sob fundo escuro de outras vegetações.



Coleção



Há muito coleciono perdas.
Tenho um álbum cheinho delas.
Todas organizadas em catálogo,
uma por folha.
As mais esquisitas,
eu mantenho em lugar de destaque,
em páginas decoradas com adesivos coloridos,
para que se chame atenção, como devido.
Luas, sóis, flores, boquinhas e estrelas sorridentes
fazem à moldura de minhas esperanças malogradas

Ultimamente, tem tanta gente
colecionando desencantos
que se não tomo providência logo,
minha coleção sairá do primeiro lugar do 'rancking'
e quero ser sempre a melhor da categoria.


Preciso aumentar minha coleção.
Tenho uns desgostos repetidos
que não exponho, sabe?
Estão guardados em uma caixinha alaranjada,
tudo muito bem conservado na memória.
O motivo é que são exemplares raros,
mas que para mim
aconteceram uma segunda vez.
Tem alguém com desapontamentos duplicados,
disposto a fazermos troca, um por um?

14 de dezembro de 2006

Segredos


Descrição da imagem: num tapete de vegetação verde repousam florzinhas parecidas com margarida, 
só que em tom rosa bem chamativo e com miolinho branco.

Segredos
(Para Beatriz, também)

.
Eu conheço o teu mundo, pequena,
e nele também fiz morada
e me protegi por longos anos
entre os arbustos frondosos
e as flores gigantes de girassóis.

Conheço tuas fadinhas,
teus duendes,
e os teus príncipes também,
pois com eles convivi
entre aventuras e sorrisos.
Corremos juntos atrás do arco-íris,
dos vaga-lumes e das libélulas apressadas,
e nos atirávamos nos riachos cristalinos
e do alto dos penhascos em vôos rasantes.

Sei dos teus medos,
pois também vi os dragões
e os vampiros de olhos vermelhos
que se escondiam entre os sonhos bons
tentando surpreender.
E são assustadores, mesmo.
Mas asseguro a ti: não temas; tudo vai dar certo.
No final, é você quem vai vencer.

Tenha calma, portanto.
E desfrute das árvores que falam,
das nuvens de algodão que brincam
e dos rios de chocolate que se oferecem.
E confidencio: farão falta,
quando finalmente
vieres inteira para o lado de cá
onde tudo está envolto
em névoa cinzenta e pesada,
por nossa própria ousadia
de nos permitir entristecer
com coisas pequenas e sem importância.

E aconselho: guarde tudo na memória.
Guarde as lembranças todas.
Dos sóis sorridentes, das joaninhas lustrosas
e dos sapinhos peraltas
que brincam nas vitórias-régias.
Eles são o combustível para seguires adiante.
É que essas tuas coisinhas todas
são ensaios para as coisas grandiosas
que estão desenhadas em teu caminho, verás.

Sim, já me mostrasses teus propósitos
desde as sensações em meu ventre.
Impetuosa, determinada, resoluta.
Viesses com teus sinais e tuas missões.

Segue teu caminho.
E segue com flores nas margens,
com nuvens que guardam,
com luas que acompanham a caminhada
e com estrelas que iluminam tudo
para que não tenhas medo.
Nunca esqueças de necessidade de cor e versos
que tem os que nasceram de um sonho, como você.
Anjo meu, anjo de mim,
viver é o nosso segredo.
Guarde-o com cuidado.

13 de dezembro de 2006

Um dia atrás do outro

Descrição da imagem: sob fundo escuro composto de outras vegetações, 
uma junção de várias flores pequeninas e brancas foram um buquê natural.

Um dia atrás do outro


Os dias vêm se sucedendo
numa cadência que não me diz respeito.
Os dias nascem e se encerram
com o mesmo colorido,
o mesmo calor ameno
e a mesma penetração de luz.
Nada muda.
A vida parece não caminhar em meu ritmo.
Sim, sei que ela passa. Sei sim.
Vejo as marcas da vida
na pele de minhas mãos
e ao redor de meus olhos.
Odeio esses sinais do tempo!
Não poderiam ser outras,
em locais menos visíveis,
essas marcas do que vivi?
Não poderia a aridez da idade
se concentrar toda num lugar só
lá na sola do meu pé esquerdo,
como um arremate bem feito,
onde eu só pudesse vê-lo
com muita dificuldade, em contorsão?
Ou por que não no avesso de minha pele,
lá pela nunca, perdido entre os cabelos
em costura de fio invisível?
Construí minha vida, estou certa.
Sou inquieta demais p
ara ficar na janela escutando música.
Mas nos últimos tempos
os acontecimentos parecem
alheios a meu ritmo.
A vida parece ter me esquecido
em algum cantinho sem graça,
em alguma estrada marginal,
e nada me acontece, que seja digno de registro.
Estou numa espécie de ponto de apoio
onde as pessoas param,
se entregam ao cansaço,
se recompõem tomam fôlego e prosseguem.
Sou a que diz as palavras de perseverança
bravura e intrepidez.
A que dá força para prosseguirem.
Mas quando elas se animam e vão adiante,
permaneço em minha melancolia atonal,
parada, no tal cantinho
aguardando não sei bem o quê,
e vindo não sei de onde.
Sou, mesmo, da equipe de retaguarda.
A que nunca vai cruzar a linha de chegada,
a que nunca vai receber a taça no podium
mas que participou ativamente da campanha,
no suporte, nos preparativos, nas negociações.
Nunca conduzi feitos magistrais,
mas sempre estou por perto
de quem os deu vida.
Uso bem, e em meu favor,
as descobertas alheias,
mas nunca inventei nada 
que viesse a me trazer glória ou prestígio,
ou que levasse meu nome
a ser citado em conversas alheias
travadas há quilômetros de distância.
Só uma vantagem:
se de bom não me vieram ocorrências,
ao menos os infortúnios passaram longe.
Os que amo, não morreram ainda.
Os que convivo, não se machucaram
e nem machucaram ninguém.
A vida segue sua cadência,
num som grave, de batida oca, faceiro,
mas em tom de acompanhamento.
Batuque que sozinha não forma melodia.
Dilema: não sei se espero
a vida concluir esse seu ciclo enfadonho,
em marcação amena,
ou se acelero os ritmos de meu coração
e me atiro desvairada numa rota que não é minha
só para sentir o gosto apimentado
da aventura alheia.
Sinto que esses dias não me pertencem.
Foto: Emanuel Galvão (novembro/2006)

Missão no meu mundo


Descrição da imagem: várias flores azuis, de centro branco e amarelo, com raios saindo do centro da flor,em tom mais escuro de azul, a imagem só foca as flores.


Missão no meu mundo
A minha ordem não tem graça alguma.
As coisas se dispõem compassadas
mas o ritmo desse compasso militarizado
é enfadonho em minha vida.
Vivo assim neste mundo.

Qual a última vez que andei descalça?
Deve ter sido o primeiro.
O primeiro e o último dia de aventura
se fundiram num só.
Provei e reprovei a idéia de liberdade
em um só ato.
Não tenho tempo
Para as coisas simples do mundo.

Tenho idéia fixa
em viver tudo o que tenho como meu,
por todo o tempo que possa.
E aí não tenho tempo
para muita coisa que reste no mundo.

Alguns vieram com propósitos
tatuados no pulso, na nuca, na sola dos pés.
A mim nada mais importa
que completar minha missão terrena.
A que foi tatuada em outro mundo.

Então, o tempo que seria tempo
de nada fazer, eu dedico a remoer idéias
e a decifrar enigmas
de um universo mais justo e solidário
que o que se põe.
Muitos vieram com a mesma marca.
Temos a missão de melhorar o mundo.

Nas horas que deveriam ser as vagas,
as dedicadas ao nada, não relaxo.
Nada de recreio, nada de intervalo.
Construo, destruo e reconstruo,
sem trégua.
Tenho a obrigação de melhorar o mundo

A minha ordem me mata aos poucos.
Mas, cedo ou tarde, quem é que não vai morrer?
Então, pouco importa. Permaneço.
Se me foi dado vida e itinerário,
faço por onde merecer o mistério do mundo.

Incito povos, por meio do sangue misto que me habita,
fomento revoluções pessoais,
instigo discussões homéricas entre o ego e o id.
Quero ser o melhor que possa,
com esse corpo e essa mente com que vim ao mundo.

Alimento a alma, instruo a mente,
e para o corpo, litros e litros de creme hidratante
e óleos essenciais.
Tenho obrigação de ser o melhor possível,
neste mundo.

Ser agradável aos olhos faz parte da missão.
Fica mais fácil o convencimento, a persuasão.
Então me visto de brilho, seduzo, sorrio,
lanço olhares como flechas de conquista,
acendo incensos e conquisto o mundo.

8 de dezembro de 2006

Duas gotas de delírio

Descrição da imagem: sob folhas verde, duas flores rosa claro, com centro amarelo


Duas gotas de delírio
(13/11/1987)
Corro em direção ao sol
Na procura do que me dê forças
e sozinho não consegui encontrar.
Vou de carona num coração qualquer, de borracha,
que tem a forma que sonhei e nunca se rompe,
não pedindo alimento.
Ando de costas: tenho medo de traição.
Respiro fundo na esperança de purificação.
Tenho medo das palavras dos homens
Evito olhares que se cruzem e se choquem em dor.
Desvio os sorrisos que me causem espanto ou admiração.
Sei que sempre quero demais.
Mas tem muita coisa omitida em meu desejo.
Também sacrifico sonhos, coleciono frustrações.
Só que destilo tudo, e aí viram versos.

Estimulando algodões

Descrição da imagem: ao centro de um fundo escuro, composto por outras vegetações, duas flores brancas, de centro rosado e amarelado. Uma delas se encontra no foco e a outra desfocada.


Estimulando algodões
(25/11/1987)
À primeira vista, parece algodão
Algodão doce
Branco ou de leve cor
O cheiro é de amor
Macio ao tato
Gelatinoso à carícia
Receptivo às sensações
Respondendo às minhas fantasias
Cúmplice
Devoro com o meu desejo
Tateio em meus sonhos
A resposta que preciso é a tua procura
Pelas minhas mãos em teus seios.

Vácuo

Descrição da imagem: em fundo verde, uma flor parecida com a margarida se encontra posicionada ao centro. Só que é toda amarela.

VÁCUO
(Julho/1987)




Caminho por meio de sonhos sonoros.
Traio a confiança de meu corpo cansado e doente.
Grito para o nada e espero o retorno do eco
Vindo do oco de meu vazio anterior.
É promessa, sim : juro me querer para sempre.
A mim faço essas promessas e outros fúteis desabafos.
Minha morada é no coração de quem há muito já se foi.
Corro pelo arrebol de minha consciência
Ela brilha, cansada, insistente.
Me procuro...
É claro que não me encontro.
Eu não existo!!!

25 de novembro de 2006

Palavras de absinto em meu jardim


Descrição da imagem: vários cravos, em tons de vermelho e amarelo. Ao centro, um cravo cujas pétalas são em degradê branco e vermelho.


Palavras de absinto em meu jardim 

Adormeci no jardim
e acordei com o perfume das flores
impregnando o nariz.
Logo descobri que estava fixado
na base de minha nuca,
no jardim que criteriosamente imprimi em relevo
para nunca mais esquecer de onde vim,
para onde vou e o que sou.
O cheiro, adquiri no repouso.
É que fiz um travesseiro de gérberas
e das tantas outras flores vermelhas,
que colhi no escuro da noite,
para depositar meu cansaço,
depois que enfrentasse os fantasmas perfumados.
O perfume era de absinto,
Misturado com suor e medo de fracasso.
Adrenalina!!! Os cães loucos vão me farejar!!!
Sempre soube do perigo de adentrar no jardim
Depois que o sol se pusesse. Mas fui.
Estou enfrentando os medos!
E consegui me acalmar o suficiente
para adormecer, ainda que de cansaço,
ao menos por alguns minutos,
quando tudo estava em silencioso e calmo,
pouco antes do nascer do sol, lá no horizonte.
Sua luz anunciava
Que o perigo tinha sido vencido,
Ao menos por mais um dia.
Estou ousando mais:
ando ensaiando passos mais firmes
entre os canteiro irregulares de perigo e beleza.
Há palavras pontiagudas
se espalhando por todos os lugares,
escondidas entre as pétalas e as folhas,
em forma de pequenas lanças,
imitando espinhos agressivos,
ocres, insistentes, traiçoeiros.
Todo o cuidado é pouco:
se me picarem, sob o torpor do quase-veneno,
escreverei sem fim,
revelando segredos, medos e desejos.
Desse jeito confessarei quando foi que fraquejei
e quando perdi o interesse de prosseguir.
“Não, não se assuste tanto assim...”
As coisas mudaram.
Os meus dedos estão calejando
cada vez mais depressa.
Estou sobrevivendo cada vez mais imune
às feridas envenenadas.
A pele da ponta dos dedos engrossou.
Já coleciono várias cicatrizes.
Mas sou exigente:
para acreditar os ensaios dispensáveis,
entendo que careço de mais dor.
“Tenha calma”.
A diferença fundamental é que os espinhos
hoje em dia, até penetram, machucam,
mas tudo fica por aí.
Não conseguem mais profundidade
para oferecer risco
de ferida de morte ou mutilação.
Tem momentos em que me vem
o arrepio da proximidade do perigo.
Mas aprendi que este é o momento
em que se precisa ter calma.
Sento em algum cantinho do jardim
e pacientemente vou forçando a saída do espigão.
Às vezes demora anos para ser expulso.
“Mas, paciência. Sempre sai”.
Fico aguardando, quando nada posso fazer...
E quando sai, volto a me jogar para frente.
Cabelos ao vento e fúria de uma primeira vez.
Às vezes, quando se força a saída,
O espinho se parte em pedaços
e algo de sujo e endurecido permanece por dentro,
contaminando, corroendo, inflamando...
Mas passei a entender o processo:
isto contribui para a formação da calosidade,
que é o que me protege.
“Sai, paciência, que sempre sai”.
Pele grossa é pele feia, árida e sem viço.
Mas é pele útil, levando-se em consideração
a necessidade de vencer a guerra de sentimentos
tão própria da natureza humana.
O tempo...
O tempo vem me fazendo os calos...
Ainda não tenho como avaliar
se foi boa coisa o que ele me fez.
Vou precisar de mais tempo para poder responder...
Enquanto isso, vou circulando os canteiros
já em postura de “vencedora de batalha”,
provocando as flores
e desafiando as palavras aos berros.
Assim, obrigo-as a me atacar de novo,
e de novo, e de novo...
Continuo a guerra santa,
acelerando o meu treinamento pra vida.
É que tenho pressa.
Quero bom êxito agora,
para me atirar neste restinho de tempo
que ainda me sobra.

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