7 de novembro de 2007

A Secreta

A secreta

São assim, mesmo, os meus poemas.
Legítimos exemplos do quase nada.
Legíveis por pouco tempo –
é que os sentimentos coloridos se misturam todos,
formando uma massa ocre da qual
não é possível se extrair mais nada.

É que escrevo em papel úmido,
e com lápis hidrocor.
Por épocas, me consideram escritora.
Dá medo! É maior do que sou.
Me entendo vazando pelos dedos,
em sangue preto de nanquim.

Mas às vezes
a vaidade assume as rédeas de mim
e me ponho a arrotar ares de poetisa.

”Sim, tenho um dom!
Tenho tudo para ser um sucesso literário:
amores mal vividos, dores que não saram
segredos inconfessáveis,
lembranças que doem,
saudades que queimam.”

Não me faltam temas atraentes para a humanidade
– Adoramos as dores alheias.

Angústia, depressão, coração que aperta.
Já pensei em suicídio umas tantas vezes
que há anos perdi a conta.

Tem dias que permaneço em meu quarto.
A noite chega e de lá não saio.
Dias a fio, na solidão que preciso
para perder o medo do próximo passo.

Dias em que só tolero água.
Noites em que me sento ao chão da cozinha
e nela rumino por horas.
Sou de pólos opostos,
como toda mulher que se aceita
regida pela lua.

Silêncio, silêncio...
Depois os gritos afônicos.
Só a feição de dor e a boca seca...
De palavras concretas, nada, nada, nunca!
Palavras só saem de minhas mãos,
pelo sangue-nanquim
que me correm pelas cânulas e tinteiros.

Preciso manter em segredo estas coisas todas.
Se me descobrem entre os sadios,
perigo ser atirada na morada dos loucos.
De lá, não se sai com os sonhos intactos...

Prossigo simulando equilíbrio,
enquanto o meu avesso todo
queima e grita, e arde, e chora e se contorce.

A posição fetal me acalma...

Pego os meus papéis,
como de costume,
umedeço-os com minhas lágrimas
e os personalizo com meus lápis hidrocor.
Cada marca, uma dor.

Rápido! Rápido!
Leia-me enquanto não se embaraçam.
De novo... Mais uma chance se foi...

Estou só...
Estou sempre só...
Até hoje, nunca me chegou alguém
antes da previsível fusão de cores
que me decifrasse em grafite
e me dissesse em preto no branco
as respostas que me habitam.

É preciso me olhar nos olhos,
de fora pra dentro.
Depois, falar-me o que vê.
Têm respostas que o espelho não reflete.
Só outros olhos são capazes de perceber.
Certas nuances furtivas...

Se me olho, capto em distorção,
não me serve.
Preciso do segredo,
o que está dentro
o que me foge, o que me trai.
A outra.

A que sai na noite
e gargalha pelas sombras.
A do mundo, a que não conheço ainda.
A que tem cabelos de fogo
e olhos quentes.

A que sabe quem eu sou
e me reconhece.
A que me esconde as pistas
para se divertir com minha agonia.

A que nego,
mas de fato só em mim habita...

18 de maio de 2007

Ecstase


Descrição da imagem: cachos de flores amarelas pendem de uma árvore que se encontra quase sem folhas. Ao fundo, um céu de um azul cinzento, como em dias de outono.


Ecstase


Sei que ninguém mais te traz
a adrenalina que injeto em tua vida.
E é por isso que permito que te vás,
e te vás, e te vás, como há muito já te disse.
Para longe e para todo o sempre se vá.
Pois tenho em mim que após breve descanso
sempre retornarás.

O mundo não entende a equação de nossos beijos
intervalados, em picos de amenidade e vandalismo.
Um ponto, uma intermitência, e o prosseguimento.
É assim que transcorre nossa vida:
em ciclos de profundo amor,
fechados com isolamento; e silêncio eterno.

Para sempre...
Como se no amor, algo fosse para sempre...

2 de abril de 2007

Da mais profunda pele


Descrição da imagem: flores silvestres, pequeninas, em tom vermelho, amarelo e rosado. Algumas em foco, outras fora dele.  Uma borboleta em tons branco, amarelo e preto repousa sobre uma das flores.


Da mais profunda pele

Sinto-me de dentro para fora.
A permissão primeira,
o comando de invasão de mim
vem de um ponto onde só eu domino.
Lá, onde vivem minhas vontades.

Algum lugar incerto
localizado entre meu peito e o meu útero,
onde sou rainha de mim
e ninguém me dá ordens,
a não ser, o meu outro eu.

Afinal, somos de pólos duplos
nós os seres que teimamos
permanecer pensantes
em pleno século XXI
– que ousadia!

Sinto-te pelos poros,
pois assim permiti.
Não acredito em outra forma
de relacionamento amoroso,
que não a que nos invade
com uma certa violência e desordem

E foi assim, de dentro pra fora,
que preparei sua chegada.
Derrubando guardas, desfazendo medos
festejando silenciosa,
entre sobressaltos e mansidão.
Primeiro a alma, depois o corpo
– essa armadura que passou a solicitar tua presença
em ondas cíclicas de alegria.

Pronto: amo-te!

18 de março de 2007

A dona da história


Descrição da imagem: uma flor branca de grandes pétalas ocupa todo o enquadramento da foto. O seu centro é em rosa forte e com pequenas manchinhas em tom mais escuro e tam´bem em amarelo. O seu formato lembra os pequenos e grandes lábios do sexo das mulheres.

A dona da história
E que se passem os anos
em cansativa lentidão.
E que, eles todos, em somatório,
nos afastem com ares de “nunca mais”.
Nada me verga.

Acredito nos presságios
e no movimento da vida.
Acredito na troca de olhares
e na paz que a ela se segue.
Por trás das várias capas que te guardam,
Simplesmente, acredito.

Em que parte da história? Eu pergunto.
Eu que parte houve a fusão?
Quando, sem perceber, adentrei a porta
– entre as tantas – sendo somente ela
a que me traria até aqui?
Qual caminho segui – sem que soubesse –
e onde lacei teu coração?
E com que força!
Com tranças, tecidas nas noites insones
– incansavelmente –, atei-te a mim,
e te fiz meu, sem que percebesses?

A dona da história.
Dona da minha.
Da tua história.
A dona.
A Madona.

Repousa, guerreiro meu.
Repousa em teus próprios braços
Já que não temos um ao outro
para recompormos as energias
que se fluem com o passar dos dias doridos..
Repousa ao longe, cabisbaixo.
Depois, levanta-te e prossegue.
Prossegue sem medo de perder-se de mim.
Avança, intrépido, em direção oposta – não temas.
Afaste-te de mim, quantas vezes precise
para reafirmar os seus votos pessoais,
ou para o mundo acreditar que venceu a batalha.
Vá, e vá... e vá.... e vá....
Eu, nada temo.
Há muito caminho aconchegada em teu peito.
Nada mais me importa.

14 de março de 2007


Ando sem compor poemas, mas é por uma boa causa: projetos pessoais, de pesquisa na minha área profissional vem me tomando todo o tempo.
Obrigada pela visita e me aguardem só um pouquinho, que já, já, estará tudo em ordem e volto a sonhar...

1 de fevereiro de 2007

Iesus


Descrição da imagem: sob fundo verde da vegetação, duas flores que mais parecem um feixe de tirinhas rosas e brancas.



Iesus

Venham a mim, palavrinhas!
Venham todas!
Das simples, às rebuscadas,
Das coloquiais, ao erudito.
Mas venham logo.

Preciso descrever este momento.
É necessário que todos saibam.
Careço de alertar o mundo
para o que me acontece,
para que ninguém mais
caia na armadilha
e viva dor de vida, desnecessariamente.

Preciso avisar aos outros viventes:
“Percebe aquele amontoado de folhas?”
“Está vendo a flecha envenenada?”
“Sentiu o cheiro do medo?”
“Corra! Corra o mais rápido que puder!”
“E só pare quando souber as respostas todas”.
Elas virão com a respiração compassada.
As respostas simples, e as técnicas.
As que se respondem com um ‘sim’ ou ‘não’,
e as que requerem equações em lousa.

Então, respeite o tempo!
E não se exponha muito nas noite de lua cheia
enquanto esse sábio guardião
não termia o nosso lapidar.

Por que a lua não cai do céu?
O que é o amor, e para onde ele quer me levar?
Por que o mar é salgado?
O que é o amor, e para onde ele quer me levar?
Quem foi o designer das asas das borboletas?
O que é o amor, e para onde ele quer me levar?

Venham a mim, palavrinhas.
E me permitam descrever com fidelidade
o grito que há anos ensaia rasgar minha garganta
mas pára na última camada de pele
deixando marcas, vergões e hematomas,
sem que vire sonoridade.
Permitam-me descrever a tortura
e a covardia que lhe segue o silêncio.
Permitam-me explicar a dor que lhe acompanha.

Peço consentimento aos mestres
para enfileirar palavras
em uma linha sinuosa e sem fim.
Precisarei de muitas
para explicar o que se passa
e garantir que ninguém desconheça
que a vida lhe crava os dentes afiados
toda vez que se navegue em ziguezague.
“Navegar é preciso” sempre.

Mas que seja com dignidade e elegância,
objetivo e direção.
E uma certa graça
- bálsamo das dores que me acompanham.


24 de janeiro de 2007

Amor e vida

Descrição da imagem: sob fundo pedregoso, duas flores brancas, de centro amarelo, com raios avermelhados.


Amor e vida


Movida pelo coração,
falta-me razão de existir
se me percebo em passos solitários.

Não sei ser “eu”, assim, somente.
Não me foi repassada essa lição
de sobreviver, íntegra, sendo unidade.
Ou cabulei a aula,
seguindo, fugitiva, o meu amor pela vida?
Já faz muito tempo.
Agora não sei mais o porquê
mas me agradam os movimentos duplicados.

Sei, que só sei andar em dueto.
Aos pares reinvento sorrisos,
alimento desejos e
junto as mãos em prece
para os casos de dor profunda
– já que a fé passa a fazer morada em mim.
Simplesmente, confio.

Acredito que o bom mesmo,
se não se pode andar aos pares,
é ao menos ter lembrança
de olhos e de beijos,
de mãos e gemidos cúmplices.

Ainda que em silêncio
Não abro mão desta crença.
Acompanhada, ou em solidão ritmada
escolho seguir impregnada de sentimentos
pois de outra forma, eu não sei para o quê vim.

18 de janeiro de 2007

Seara em ruína

Descrição da imagem: folhagem verde escura de uma mangueira

Seara em ruína

Contigo, foram-se as letras e os papéis.
Foram-se contigo as idéias e as tintas.
Todos eles te seguiram em cegueira,
pois são servos de tua luz.

Agora, o que me sai da boca
é cinzento e sem lume.
O que me escapa aos dedos
é horizontal e circunspecto

Não me acostumei com as perdas.
Não me acomodei a elas,
por isso os pesadelos monocromáticos.

Vez por outra
me pego de caneta em punho
rabiscando inutilmente
as folhas dos cadernos que restaram.
É o desejo que as cores voltem.
Mas não voltam. Nem nos sonhos.

Tantos dias já se passaram
sem um sussurro,
sem um soprar de brisa,
que poucas já são as chances de retomada.

Ao que parece, acabou.
Secaram os sorrisos
Murcharam os desejos
Humilharam-se as flores.

Ao certo, somente as lembranças.
E essas, eu ainda não defini em mim
se são frutos de delírio
ou restos de frustração.

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