17 de agosto de 2006

Três jornadas e mais hora extra


Descrição da imagem: as folhas verdes da roseira ocupam toda a foto. 
Ao centro, uma rosa já seca e morta, que era cor de rosa escuro, mas que se encontra desbotada.

Três jornadas e mais hora extra
São 4h15min da “madruga”, de uma sexta-feira pós-feriado.


Enquanto minhas “olheiras” fitam o monitor e meus dedos dormentes dedilham – sem compromisso – o teclado do PC, minha filha, Beatriz, de quatro aninhos, exausta, repousa o sono dos justos, tentando recuperar as horas que lhe foram roubadas por uma inesperada crise de asma. Vez por outra, em situações como essa, as mulheres se vêem diante de uma terceira jornada, compulsoriamente agregada ao cotidiano, que já possui outras duas oficialmente estabelecidas.
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Beatriz foi nome que escolhi para a filha que eu viesse a ter, antes mesmo que me visitasse o instinto maternal, ou se apresentasse parceiro que partilhasse o mesmo sonho. Significa: “a que traz felicidade”... e traz mesmo! Nunca me vi tão seguramente apaixonada e nem tão concentrada em fazer alguém feliz.
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Sim, ter filhos é o mais intrigante mistério da vida. E não há nada nem de longe parecido, que nos permita estabelecer comparações, para facilitar o entendimento dos que ainda não experimentaram do milagre.
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“Mas tudo tem preço e nome”: a maternidade traz, também, sua dose de peso e desconforto. Principalmente para as mulheres dessa era, que deram asas as suas vocações e buscaram seguir suas aspirações e seus sonhos, não mais dedicadas somente a condução do lar.
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Noites sem dormir, como esta, são relativamente constantes, pois o sono é de virgília. Já os dias ficam corridos, pois você passa a se dedicar a dar solução a “duas vidas” (uma espécie de “empresária voluntária” em tempo integral dos interesses dessas coisinhas fofas). Pentear dois cabelos, passar fio dental em duas bocas, vestir dois pijamas, limpar quatro orelhas e cortar quarenta unhas.
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O peito do frango, sua parte preferida, não mais lhe pertence, se a genética for forte e os paladares parecidos. Pensou que ficou livre do Português, Matemática, Geografia e História, por ter colado grau em nível superior e apostado em carreira que não requer o manejo desenvolto da tábua de logaritmos, do uso da crase ou das invasões persas? Vai ter que começar a estudar tudinho de novo! Vai ter que ativar a memória para acompanhar as tarefas escolares que, hoje em dia, não são moleza.


Energia para montar quebra-cabeças ou para assistir pela vigésima sétima vez ao “Rei Leão”, com entusiasmo, quando tudo o que se quer é maldizer a vida e jazer prostrada no sofá, após longo dia de trabalho... lamento, não é mais possível. Ela quer brincar! E isso são só alguns exemplos de situações que nos tumultuam o dia-a-dia. Porém, pagamos o preço, sorrindo, tamanha a plenitude desse relacionamento. Pelos filhos perdemos os pudores, esquecemos os (pré)conceitos, jogamos fora a classe e a etiqueta. O que nos importa é que eles estejam bem, confortáveis e felizes, e nos permitam permanecer como espectadores de suas conquistas e alegrias. Nada mais.


De certo que há homens completamente concentrados em ‘lamber suas crias’ e conduzi-las ao mundo, ensinando-as “o caminho das pedras”. Mas, infelizmente, essa não é a regra. Cabe a nós orquestrar os atos necessários ao desfecho vitorioso dos males que porventura acometam nossos pequenos rebentos. “Não dá mais. A febre não cede. Vamos ao hospital”. No filme de nossas vidas, essa fala é nossa, mocinhas ou bandidas. Somos nós que decidimos a hora. Eles balançam a cabeça, em assentimento e reverência a nossa natural intuição, e tentam ser rápidos, manterem a calma e serem frios ao volante.
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E a tal sociedade nos ensina que só por isso já devemos “lamber os beiços” e agradecer aos céus. ”Poderia ser pior!” – dir-se-ia – como se ao homem fosse dado o direito de “chutar o pau da barraca” e portar-se como irresponsável, inconseqüente e, ao mesmo tempo, manter a honra branquinha e engomada. Mas parece que para a mulher só foram reservados os dois extremos: “santa ou puta”.
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A todos, atenção! Não é somente o fato de ter nascido mulher que determinará a presença do instinto maternal em nossas vidas. Algumas mulheres, simplesmente, não o terão. Assim como alguns homens foram com ele presenteados. E isso não fará de nós menos machos, ou fêmeas. Já evoluímos o bastante para entendermos que a diversidade é algo a ser respeitado. Abaixo os rótulos!
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O dia vem nascendo e o sol aparece. A “que traz felicidade” permanece em sono profundo, como a “Bela Adormecida”, sem fuso e sem roca. Terá sido a agulha da injeção o malsinado objeto enfeitiçado, que não lhe permite o despertar??? Imune ao feitiço – portanto, fora do conto de fadas – permaneço acordada. E na vida real o cansaço físico persiste, ainda que feliz tenha sido o final da estória.
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Contemplo o rostinho suado, que sinaliza que a febre cede aos poucos. O respirar, ainda ofegante, força a boquinha a permanecer aberta, em alternativa ao ar que não chega suficientes aos pulmões, o ronco no peito... concluo a “terceira jornada”.
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Mas a vida ainda nos pede mais. Há previsão de “hora extra”. É o último ato de coragem dessa odisséia doméstica, da qual os homens também parecem estar liberados (já que nesse jogo de luta pela vida de nossas crias, foram “escalados” como reservas): apresentar atestado médico no trabalho, relativo a uma sexta-feira, quando a quinta que lhe antecedeu foi um festivo feriado. Ainda bem que minha chefia direta é ocupada por uma mulher, que - a propósito – também é mãe.

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