3 de outubro de 2006

Morte e ressurreição do amor

Descrição da imagem: foto de mãos de mulher segurando pétalas de rosa cor da pele.  
Ao fundo se vê que a pessoa usa vestido de cor crua, de linha.


Morte e ressurreição do amor


O amor nos escolheu. A nós dois. E pronto.
Assim, sem explicação e sem aviso prévio.
Éramos novos, sorridentes...
E de forma compulsória fomos escalados para recriar
a incansável saga do mistério da humanidade: amar!

Tratamos logo de criar subterfúgios,
estratégias de defesa, meios de proteção.
Selamos um pacto ardiloso:
aparentemente, nos permitiríamos.
Aparentaríamos temperamento dócil,
faríamos poucas exigências,
sorriríamos bastante, trajaríamos as vestes dos emotivos,
verteríamos lágrimas de alegria.
Enganaríamos o amor.
Ao final: incólumes, safos e livres.

E o amor... ah, esse não teria escapatória!
Pagaria pelas dores que já causou!
Sofreria os males que dantes provocou!
Seria, por nós, enganado e ludibriado.
Acabaria sozinho e triste.

E assim seguimos, em parceria.
Ingênuos e agressivos.
Acreditávamos sobre tudo ter o controle.
Que o amor não frutificasse! Que ele não ousasse!
Estávamos atentos.

A rosa púrpura...
Que os personagens que encenávamos
não crescessem e tomassem nossas vidas,
tão reais e tão sem graça.
E assim seguimos.

O papel era perigoso.
Requeria dublês em vários momentos.
E o orçamento não permitia.
Não teríamos como prestar contas ao amor
e atuamos só nós dois.

Iimaginamos unissonantes:
Vamos eliminá-lo!
E com requintes de crueldade!
ele merece sofrer, esse ladino,
por tudo de mal que já fez a humanidade.
Pelas noites mal dormidas, pelas mortes prematuras,
pelas balas nos peitos e pelos venenos nos copos,
pelos mortos-vivos que não fazem diferença,
pelos aluados de dor que foram viver esquecidos.
Sim, ele merecia sofrer.
E assim selamos seu destino – acreditávamos.

Torturas para que confessasse o que de nós pretendia.
E ele admitiu tudo!
Sim, ia nos arrebatar, a nós dois, este delinqüente!
Uma dupla emboscada, era o que nos aguardava.

O maltratamos, sem dó, pois que merecia.
Vazamos seus olhos, para que não mais visse
o resultado de seus atos e com ele se deleitasse.
Nenhuma aparente sintonia testemunharia mais.
A língua, esta arrancamos,
para que não mais nos seduzisse
nem com palavras e nem com carícias quentes.
Tímpanos estourados.
Nenhuma palavra mais ouviria para seu deleite.

Mas, o que fazer com as tantas outras imagens,
e palavras, e gestos, e sentimentos
que de tantas experiências passadas
já acumulava em sua mente?

Era muito perigoso, esse elemento.
Tínhamos que eliminá-lo de uma vez por todas,
e sem sombra de dúvidas.

O golpe de misericórdia foi proferido.
Esse amor não podia ter mais cara,
nem vez e nem coragem.
Pronto!

Devidamente eliminado, o elementos e os vestígios,
trocamos um breve olhar de cumplicidade.
Um leve sorriso que selou o pacto de segredo
Desse nosso crime hediondo,
sem precedentes e sem perdão.
E seguimos para nunca mais.

Vida, morte e vida.
Valemo-nos do eterno desconforto do amor,
de ser sempre intruso e indesejado.

Só que nos enganamos feio!
Matamos o amor – é certo.
Mas só o amor que existia entre nós dois.
Não corríamos mais o risco
de "sermos felizes para sempre".
Mas a energia, a alma do amor assassinado,
essa passou a perambular inquieta,
e escolheu nós dois como guardiões solitários,
que seguimos possuídos e condenados a amar para sempre
da forma mais autêntica,
espontânea, plena e duradoura
que se possa imaginar.

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