7 de novembro de 2006

Ensaiando pra vida

Descrição da imagem: flor amarela, com centro em tons de marrom.


Ensaiando pra vida

.
É isso mesmo,Deus:
quero uma segunda chance.
Não me leve muito a sério, agora.
É que até então,
estive só ensaiando.

Ensaiando pra vida.
Para vida que acho que me cabe.
É que não quero fazer feio na estréia, sabe?
Por isso até agora não foi de “vera”.

E você sabe
que tenho treinado com determinação:
decorado falas, ensaiado gestos,
socos simulados,
aprendido choro cenográfico,
tudo direitinho.

Quanto será que mereço?
Quanto será meu cachê?
Quanto vale uma vida?
Quanto vale a minha vida?

Existirão gradações?
Vidas com “glamour” e emoções fortes,
valem mais do que vidinhas sem graça
de quem se resguardou das intempéries,
por que enfrentar dor requer coragem?

E para quem, como no meu caso,
numa hora se guardou, em outra se atirou,
a depender da proporção
entre o que meus olhos viam
e o que meu coração acreditava?
Há tabela de valores,
para estimar a proporção exata
entre meus momentos de coragem
e os de covardia,
e concluir em grupo me encontro?

Deixemos as discussões para outro dia.
Pai nosso, Pai meu.
É que hoje é dia de estréia. Concentração.
Cenário em ordem
(o figurino fica por conta
do meu hidratante corporal),
e burburinho na platéia atenta e curiosa.
Não dispenso os aplausos com o apagar das luzes
e o fechar das pesadas e cinzentas cortinas
que providenciei, para valorizar o meu enredo.

Preparem-se todos:
Há cenas de sexo e emoções fortes.
O espetáculo não é recomendado
para menores de 32 anos.
E não tentem repetir em casa,
sem acompanhamento médico.

Solicito que desliguem os celulares,
evitem as conversas paralelas
e as fotografias com “flash”
para que não tirem a graça e a magia
dos truques de cenário
e assim fiquem expostos demais os personagens
- não ficaria bem para a reputação deles.

Prometo me esforçar
para que riam bastante
e levem uma lição dentro de si.
Mas, se for o caso,
chorem quando a dor for maior
que a preocupação com a elegância e a compostura.

E, por favor, silêncio,
para que se escutem
os pensamentos em voz alta
e as batidas desanimadas
desse meu massacrado coração.

Senhoras e senhores
o espetáculo vai começar!!!

5 de novembro de 2006

Salve, Mestre Verdelinho!


Descrição da imagem: Mestre Verdelinho, no palco, entre microfones, empunhando sua viola.  
Ele veste calça social e chapéu marrons e blusa verde de lantejoulas.

Final Feli! Salve, Mestre Verdelinho!
Mas, e a Cultura Alagoana? Quem salva!?

.
"O homem é o rei dos animais
e a mulher é a rainha da beleza".
(Verdelinho)

.
Há, apenas, alguns dias do lançamento de seu primeiro cd, neste dia 02/11/2006, deu entrada na Unidade de Emergência o Mestre Verdelinho, expoente da cultura alagoana, vítima de AVC e, em seguida, vítima do sucateamento da saúde pública em Alagoas. Foi necessário acionar amigos e admiradores, para lhe garantir um atendimento minimamente decente, ainda que efetuado nos corredores da UE.

Não obstante o susto, felizmente, ontem (04/11/2006), o Mestre teve alta e já se encontra em casa, aos cuidados dos que lhe amam e admiram. Aparentemente, não houve seqüelas.

Aos Mestres, seus seguidores, seus admiradores e todos os que trabalham "de graça, e por graça", vem sendo conferido o mesmo tratamento precário, que o enfrentado no sistema de saúde pública: descaso, assistência mínima (somente emergencial), e em péssimas condições.

O fato deve nos fazer, ao menos, refletir: assim como o Mestre, a Cultura Alagoana, essa "senhora de idade", também já requer cuidados e atenção. E precisa ser tratada com respeito, o que não é favor algum.

Oferece-se apenas o necessário para que ela se mantenha viva, sem se oferecer caminhos para o restabelecimento total de sua saúde, ou seja, a sua consolidação e reconhecimento como fonte de recurso e investimentos em nosso Estado, o que consistiria, de forma transversa, em melhores condições de vida, mais emprego, mais decência.

Não temos muitas indústrias, não temos comércio de grandes proporções. Restam as belezas naturais que Deus nos deu (e que nós sequer conservamos), a alegria e a criatividade de nosso povo, muito bem representadas pelas diversas safras de artistas locais, diga-se de passagem.

Nossos artistas, esses insistentes que não desistem nem quando "acreditar no sonho" significa colocar em risco a sua própria sobrevivência e a de sua família, como ocorreu com o Mestre, não são vistos com “bons olhos”.

Vemos os sorrisos dessa boa gente, em festas e apresentações. Eles nos alegram, tocam nossos corações, embalam nossas paixões e tornam mais especiais os nossos dias.

Mas não nos questionamos em como passam os outros dias da semana, aqueles em que não trazem beleza para os nossos olhos.

Para onde eles vão?

"Depois da festa", retirado o pó de arroz e a casaca colorida, como vivem os nossos "iluminados", os que trazem brilho e sorrisos?

Dedicam-se a compor e produzir, a bem de nossa cultura e para nos trazer mais alegria, ou são obrigados a se desdobrarem em duas, três jornadas de trabalho, para garantir suas sobrevivências e criar decentemente seus filhos, relegando os dons e os sonhos aos poucos momentos de folga, ou mesmo as horas que deveriam dedicar ao seu descanso?

No dia seguinte aos momentos de inspiração ou de palco, ponto batido com atraso, cara inchada, olheiras, baixa concentração e a fama de "vagabundo e irresponsável" parece se confirmar, aos olhos do patrão, por não conseguirem conciliar duas profissões tão eqüidistantes, uma que lhe ocupa a dia, outra que lhe ocupa a noite.

Sim, nossos artistas estão confinados em lojas, escritórios e órgãos públicos.

E esses são considerados os "sortudos".

Tem os que tiveram menos oportunidades e têm de se agarrar aos subempregos, bicos ou favores. Que Deus os proteja.

O que se fazer para garantir condições dignas de sobrevivência e uma velhice respeitosa, a quem abraçou o caminho da arte como profissão?

O Mestre Verdelinho é um homem franzino, mas forte e robusto em suas convicções. Não foi dessa vez que ele desistiu da vida. Ainda há muito por fazer e ele não parece ser homem de descansar antes do serviço terminado.

Mas gente cansa... cansa de sofrer, cansa de tentar, cansa de ver a porta fechada e o caminho estreitando, cansa de vida... cansa, sim.

Salvemos nossos expoentes culturais, antes que eles se cansem e desistam de nós.

“E, Pátria amada, tu que és uma mãe gentil, nos ajude na missão: salve, salve e idolatre o que resta desse nosso povo heróico e que desafia a própria morte, pra que eles não fujam da luta. Aos seus filhos artistas e à Cultura Alagoana, paz no futuro, glória no passado e, por hora, ao menos dignidade e justiça, que já estaria de bom tamanho”.


Foto: Rita Mendonça (Outubro/2006)

4 de novembro de 2006

Desisti de uma vida


Descrição da imagem: roseira de onde pende uma rosa de tom claro.

Desisti de uma vida
Morreu, hoje,
sem choro e sem lamentação
uma vida que sempre julguei ser valiosa.

Morreu porque dei ordem ao meu coração
para apagar-lhe o nome
entre os tantos cuidadosamente tatuados,
acreditava, eu, serem todos merecedores
de minhas lágrimas saudosas.
Equívoco de morte!

Hoje decidi
que algo de vivo e pulsante em minhas veias
precisava chegar ao fim.
Algo que me inflamava feito um apêndice,
que de nada mais servia
a não ser para trazer a mim o risco
das necessidades urgentes,
das surpresas desagradáveis,
das atitudes drásticas,
dos resgates sem planejamento.

Sou mulher de agendamento,
de planos e de estratégias de guerra.
Todas infalíveis, creio eu.
Mas, para isso, para que haja a garantia,
preciso de lápis coloridos, papéis,
e de algum tempo.
Nada de chamadas emergenciais!



Acredito que algo de lixo, de podre
de sujo e de fedido foi sacrificado hoje.
Algo que não mais suportava.
Relações humanas intoleráveis

Se fizessem parte de um preço,
de uma dívida de gratidão ao meu santo protetor,
nesse caso, agüentaria.
Mas não se trata disso.

Nesta data tão comum
e tão pouco glamourosa para marcar eventos
e decisões de peso, morre em mim
a esperança que nutri na humanidade.

Comunico sem lapso de tempo razoável
para que não haja tempo hábil
para os pedidos de desistência
– é que tenho o coração mole
e poucas lágrimas seriam suficientes
para a minha desistência:
Mudo-me com bem poucas lembranças,
ainda hoje, para Marte!


Foto: Simoneide Araújo (abril/2006)

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