10 de fevereiro de 2009

"Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da mágica" (A.C.Clarke)


2009 chegou mais cedo.

Ele chegaria somente no começo de março. Mas para mim, de repente, chegou.

Assim, sem aviso prévio, como pedem as coisas sérias e respeitáveis. Ao menos, assim dizem...

Ele chegou. Austero, cinzento, carrancudo. Tá bom! Respeitável.

Me percebeu de canto de olho, sem sequer levantar a cabeça da página embolorada do livro que sempre carrega. A página de minha vida. A que teima em não ser virada. A que não se justifica mais que se permaneça sob a mira de seus pequeninos olhos atentos.

Sobrancelhas sempre franzidas, para evitar aproximações indesejáveis. Todas o são. Mas pareço ter um talento nato para nauseá-lo.

Aponta-me o caminho assim, sem levantar a cabeça e nem me olhar nos olhos. E ainda que cansado, se prepara para o movimento do virar da página que há tempos anseia.

O tempo anda cansado de me esperar...



Descrição da imagem: borboleta de asas fechadas nas cores branco, preto e vermelho, pousa em uma mão.

6 de janeiro de 2008

Sexo sem amor: "Você me entende?"


Descrição da imagem: tapete de folhagem verde de onde brotam florzinhas mescladas em rosa e branco.

Sexo sem amor. “Você me entende?”


Eu faço amor, com a força de quem te ama...
E depois visto minha roupa e sorrio para o mundo,
sem olhar pra trás uma vez sequer.

E sei que isso te nauseia
Afinal, até então,
não conhecias mulher alguma
que se entregasse a gozar e sorrir
e ignorasse o dia seguinte.

Sei que não conhecias mulher
que se despreocupasse com os nomes e os pactos.
Ora, isso era pra ser segredo só dos homens.
Te informo: tenho útero, mas faço parte dessa “irmandade”.

Sinto o preto dos teus olhos
acompanhando meus movimentos todos.

É hora do almoço: devoro-te.

Teus olhos seguem, atentos,
a minha entrega e o meu refazer.
Acompanham-me quando, calmamente,
ponho de volta o meu vestido preto.

Cubro as marcas do que fizemos,
com um preto que nem brilha
e nem brinca com transparências.
Austero.

Refaço-me.
Levo comigo, discretamente,
aqueles cheiros todos
que nas poucas horas
estabelecidas para o repouso de quem trabalha,
nós misturamos em alquimia e a exaustão.
Permanecem só o preto e os odores.

Refaço-me.
Da avassaladora, nada mais existe;
volto à invisibilidade que me cai tão bem.

Há um sinal: um leve decote,
para que teus olhos pretos, cúmplices,
relembrem as fantasia e os segredos de nós,
que guardo displicente e silenciosa.

Sou fantasia.
Entendes?

Em dias de ventania, mostro-me mais.
O vento nordeste adora os meus joelhos.

Os nós dos meus joelhos revelam desejos quentes
E trazem lembranças inconfessáveis,
de almoços memoráveis, celebrações de vida,
encontro entre amigos
dos quais estive inexplicavelmente ausente,
porque te devorava
– uma outra forma de celebrar a vida.

7 de novembro de 2007

A Secreta

A secreta

São assim, mesmo, os meus poemas.
Legítimos exemplos do quase nada.
Legíveis por pouco tempo –
é que os sentimentos coloridos se misturam todos,
formando uma massa ocre da qual
não é possível se extrair mais nada.

É que escrevo em papel úmido,
e com lápis hidrocor.
Por épocas, me consideram escritora.
Dá medo! É maior do que sou.
Me entendo vazando pelos dedos,
em sangue preto de nanquim.

Mas às vezes
a vaidade assume as rédeas de mim
e me ponho a arrotar ares de poetisa.

”Sim, tenho um dom!
Tenho tudo para ser um sucesso literário:
amores mal vividos, dores que não saram
segredos inconfessáveis,
lembranças que doem,
saudades que queimam.”

Não me faltam temas atraentes para a humanidade
– Adoramos as dores alheias.

Angústia, depressão, coração que aperta.
Já pensei em suicídio umas tantas vezes
que há anos perdi a conta.

Tem dias que permaneço em meu quarto.
A noite chega e de lá não saio.
Dias a fio, na solidão que preciso
para perder o medo do próximo passo.

Dias em que só tolero água.
Noites em que me sento ao chão da cozinha
e nela rumino por horas.
Sou de pólos opostos,
como toda mulher que se aceita
regida pela lua.

Silêncio, silêncio...
Depois os gritos afônicos.
Só a feição de dor e a boca seca...
De palavras concretas, nada, nada, nunca!
Palavras só saem de minhas mãos,
pelo sangue-nanquim
que me correm pelas cânulas e tinteiros.

Preciso manter em segredo estas coisas todas.
Se me descobrem entre os sadios,
perigo ser atirada na morada dos loucos.
De lá, não se sai com os sonhos intactos...

Prossigo simulando equilíbrio,
enquanto o meu avesso todo
queima e grita, e arde, e chora e se contorce.

A posição fetal me acalma...

Pego os meus papéis,
como de costume,
umedeço-os com minhas lágrimas
e os personalizo com meus lápis hidrocor.
Cada marca, uma dor.

Rápido! Rápido!
Leia-me enquanto não se embaraçam.
De novo... Mais uma chance se foi...

Estou só...
Estou sempre só...
Até hoje, nunca me chegou alguém
antes da previsível fusão de cores
que me decifrasse em grafite
e me dissesse em preto no branco
as respostas que me habitam.

É preciso me olhar nos olhos,
de fora pra dentro.
Depois, falar-me o que vê.
Têm respostas que o espelho não reflete.
Só outros olhos são capazes de perceber.
Certas nuances furtivas...

Se me olho, capto em distorção,
não me serve.
Preciso do segredo,
o que está dentro
o que me foge, o que me trai.
A outra.

A que sai na noite
e gargalha pelas sombras.
A do mundo, a que não conheço ainda.
A que tem cabelos de fogo
e olhos quentes.

A que sabe quem eu sou
e me reconhece.
A que me esconde as pistas
para se divertir com minha agonia.

A que nego,
mas de fato só em mim habita...

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