11 de junho de 2013

Um dia atrás do outro

Descrição da imagem.  Sobre pedras polidas de jardim repousa uma flor rosa claro, de muitas pétalas.

Um dia atrás do outro


Os dias vêm se sucedendo numa cadência
que não me diz respeito.
Os dias nascem e se encerram
com o mesmo colorido,
o mesmo calor ameno
e a mesma penetração de luz.
Nada muda.
A vida parece não caminhar em meu ritmo.
Sim, sei que ela passa.
Sei sim.
Vejo as marcas da vida
na pele de minhas mãos
e ao redor de meus olhos.
Odeio esses sinais do tempo!
Não poderiam ser outras,
em locais menos visíveis,
essas marcas do que vivi?
Não poderia a aridez da idade
se concentrar toda num lugar só
lá na sola de meu pé esquerdo,
como um arremate bem feito,
onde eu só pudesse vê-lo
com muita dificuldade, em contorsão?
Ou por que não no avesso de minha pele,
lá pela nunca, perdido entre os cabelos
em costura de fio invisível?
Construí minha vida, estou certa.
Sou inquieta demais
para ficar na janela escutando música.
Mas nos últimos tempos os acontecimentos

parecem alheios a meu ritmo.
A vida parece ter me esquecido
em algum cantinho sem graça,
em alguma estrada marginal,
e nada me acontece,
que seja digno de registro.
Estou numa espécie de ponto de apoio
onde as pessoas param,
se entregam ao cansaço, se recompõem
tomam fôlego e prosseguem.
Sou a que diz as palavras de perseverança
bravura e intrepidez.
A que dá força para prosseguirem.
Mas quando elas se animam e vão adiante,
permaneço em minha melancolia atonal,
parada, no tal cantinho
aguardando não sei bem o quê,
e vindo não sei de onde.
Sou, mesmo, da equipe de retaguarda.
A que nunca vai cruzar a linha de chegada,
a que nunca vai receber a taça no podium
mas que participou ativamente da campanha,
no suporte, nos preparativos, nas negociações.
Nunca conduzi feitos magistrais,
mas sempre estou por perto

de quem os deu vida.
Uso bem, e em meu favor,

as descobertas alheias,
mas nunca inventei nada
que viesse a me trazer glória ou prestígio,
ou que levasse meu nome
a ser citado em conversas alheias
travadas há quilômetros de distância.
Só uma vantagem:
se de bom não me vieram ocorrências,
ao menos os infortúnios passaram longe.
Os que amo, não morreram ainda,
Os que convivo, não se machucaram
E nem machucaram ninguém.
A vida segue sua cadência,
num som grave, de batida oca, faceiro,
mas em tom de acompanhamento.
Batuque que sozinha não forma melodia.
Dilema: não sei se espero a vida concluir
esse seu ciclo enfadonho, em marcação amena,
ou se acelero os ritmos de meu coração
e me atiro desvairada

numa rota que não é minha
só para sentir o gosto apimentado

da aventura alheia.
Sinto que esses dias não me pertencem.

9 de julho de 2012

De volta pra casa!

Meus queridos,


Em breve, e a pedidos, estarei reativando este espaço.
Beijos do Cerrado.

25 de setembro de 2010

Tudo chegar ao fim. Encerro o blog "Palavras de Absinto".

"Não, não se doma o mar
como não se doma a vida
como não se domam os efeitos
dos raios gama
sobre a superfície acetinada do teu beijo.
Estamos sujeitos às mares
aos ventos, ao tempo, temperaturas
é inútil tentar a disciplina do desejo.

Tentei domar meu sentimento
a inconstância do meu temperamento
volúvel como são as lágrimas
mas sou tão vulnerável
às vazantes, desígnios, latitudes
aos ciclos e à força do mistério

Tente domar, disciplinar
não consegui
cedi na primeira noite enluarada
no fundo do quintal, atrás da caixa-d'água".

Bruna Lombardi

E com este belíssimo poema da Bruna - que eu adoraria ter escrito, pois me traduz - eu encerro este blog, que já não se justifica por si só.

O "Palavras de Absinto" me trouxe de volta um gosto pela escrita poética que eu havia convenientemente adormecido em mim por muitos anos que se somaram formando décadas.

Mas como tradução do amor e do desejo igualmente chega ao fim.

Cumpriu sua função. Me trouxe de volta ao universo das letras e dos sentidos.  E preciso libertá-lo, como a tudo que amamos.

Agora, é prepará-lo para a publicação, missão da qual venho fugindo por pura acomodação, e para a qual já se ofereceram para ajudar tantos valiososo e talentosos amigos, que tornarão a jornada menos árdua.

Convido os senhores todos para continuar me acompanhando os sonhos e revelações.

Venham me visitar, em outro sítio, que inaugura uma nova trajetória de minha existência, não menos cheia de dúvidas, medos, alegrias, prazeres e descobertas.

O que os dedos silenciam, inauguram a minha vida atual.  Dêem-me apenas uns momentos para organizar as idéias, e me visitem, para continuarmos a confidenciar o que nos parece vida.

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